quarta-feira, 16 de julho de 2014

ali sim, como se de vida se tratasse

Tinha já passado horas a percorrer caminhos que desconhecia e tão pouco sabia onde iam levar, já cansada e desiludida com a falta de certezas, encontrei uma casa abandonada.
A tinta rosa estava já desgastada e caia aos poucos das paredes deixando-as desnudas, desprotegidas.  As suas portas feitas de uma madeira maciça haviam, outrora, sido cobertas por um brilhante verniz escuro. Ainda havia vestígios dos tempos em que as portas e janelas davam passagem aos habitantes daquele ninho de vida. Sim, aquela casa abandonada atraiu-me, com o seu ar tão fatalmente acolhedor.
 Sentei-me no beiral da porta da frente, acendi o meu ultimo cigarro e imagens das pessoas que já deixaram ali um pedacinho de vida assaltaram-me. Os amantes que se haviam despedido saudosamente ali, a eternamente dedicada esposa que teria já esperado inúmeras vezes o seu marido naquele local, com o sorriso habitual de quem já se conformou que aquela seria a sua vida para todo o sempre…
Fui, então, assaltada por uma imensa vontade de viver ali, naquela casa velha e agredida pelo passar inexorável do tempo. Quis sentar-me no terraço no final de todos os meus dias a ler o meu livro do momento, a fumar, mais uma vez, o meu ultimo cigarro, quis ouvir a chaleira no seu frenesim, sentir o cheiro a mim naquelas paredes cansadas, sentir a brisa e ver o sol fugir no horizonte. Enfim, aquele lugar pareceu-me perfeito para mim.

Num rasgo de lucidez, lembrei-me que já era tarde, tinha de voltar para casa. Tentei então levantar-me para sair dali mas fui incapaz, estava pregada àquele chão, não queria mais sair dali.  

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