Tinha já passado
horas a percorrer caminhos que desconhecia e tão pouco sabia onde iam levar, já
cansada e desiludida com a falta de certezas, encontrei uma casa abandonada.
A tinta rosa
estava já desgastada e caia aos poucos das paredes deixando-as desnudas,
desprotegidas. As suas portas feitas de
uma madeira maciça haviam, outrora, sido cobertas por um brilhante verniz
escuro. Ainda havia vestígios dos tempos em que as portas e janelas davam
passagem aos habitantes daquele ninho de vida. Sim, aquela casa abandonada
atraiu-me, com o seu ar tão fatalmente acolhedor.
Sentei-me no beiral da porta da frente, acendi
o meu ultimo cigarro e imagens das pessoas que já deixaram ali um pedacinho de
vida assaltaram-me. Os amantes que se haviam despedido saudosamente ali, a
eternamente dedicada esposa que teria já esperado inúmeras vezes o seu marido
naquele local, com o sorriso habitual de quem já se conformou que aquela seria
a sua vida para todo o sempre…
Fui, então,
assaltada por uma imensa vontade de viver ali, naquela casa velha e agredida
pelo passar inexorável do tempo. Quis sentar-me no terraço no final de todos os
meus dias a ler o meu livro do momento, a fumar, mais uma vez, o meu ultimo
cigarro, quis ouvir a chaleira no seu frenesim, sentir o cheiro a mim naquelas
paredes cansadas, sentir a brisa e ver o sol fugir no horizonte. Enfim, aquele
lugar pareceu-me perfeito para mim.
Num rasgo de
lucidez, lembrei-me que já era tarde, tinha de voltar para casa. Tentei então
levantar-me para sair dali mas fui incapaz, estava pregada àquele chão, não
queria mais sair dali.
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