sexta-feira, 18 de julho de 2014

entorpecida

Mares e marés, luas, luares. Vida, uma vida tão curta para compreender tão vasto infinito.
Contornando as esquinas de uma rua qualquer, tenho um vislumbre de realidade, um sopro de natureza, uma pequena flor lutando pela sua existência entre o asfalto rachado de uma humanidade perdida. E eu, aqui entorpecida, batida já pelo rio de sensações perdidas no decorrer de uma vida fundamentalmente supérflua.
Caminhos da minha existência recalcados de pedras, pelas dolorosas quedas provocados pelo apogeu de uma felicidade demasiado efémera.
Momentos, momentos de lucidez extrema. Respiração lenta e dolorida deste ser humano repleto de cicatrizes de todos os tipos. Mapas de uma vida meio louca de masoquismo inconsciente.
Faço agora uma tentativa de reflexão, procuro uma clareza que me conforte. Tudo o que me ocorre é este entorpecimento inequívoco, a temperatura morna de um corpo outrora demasiado quente que, lentamente, deixa escapar o seu calor para esta vida frígida.
E agora, que será de ti ser dormente, entre as euforias de um passado distante e a dor de um passado demasiado recente? Que sentirás a seguir?
À espera de alguma coisa, coisa essa que não sei qual é, aqui me encontro, sentada neste vácuo desconexo.
Um dia, no meio de um asfalto asfixiante, hei de florescer novamente.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

ali sim, como se de vida se tratasse

Tinha já passado horas a percorrer caminhos que desconhecia e tão pouco sabia onde iam levar, já cansada e desiludida com a falta de certezas, encontrei uma casa abandonada.
A tinta rosa estava já desgastada e caia aos poucos das paredes deixando-as desnudas, desprotegidas.  As suas portas feitas de uma madeira maciça haviam, outrora, sido cobertas por um brilhante verniz escuro. Ainda havia vestígios dos tempos em que as portas e janelas davam passagem aos habitantes daquele ninho de vida. Sim, aquela casa abandonada atraiu-me, com o seu ar tão fatalmente acolhedor.
 Sentei-me no beiral da porta da frente, acendi o meu ultimo cigarro e imagens das pessoas que já deixaram ali um pedacinho de vida assaltaram-me. Os amantes que se haviam despedido saudosamente ali, a eternamente dedicada esposa que teria já esperado inúmeras vezes o seu marido naquele local, com o sorriso habitual de quem já se conformou que aquela seria a sua vida para todo o sempre…
Fui, então, assaltada por uma imensa vontade de viver ali, naquela casa velha e agredida pelo passar inexorável do tempo. Quis sentar-me no terraço no final de todos os meus dias a ler o meu livro do momento, a fumar, mais uma vez, o meu ultimo cigarro, quis ouvir a chaleira no seu frenesim, sentir o cheiro a mim naquelas paredes cansadas, sentir a brisa e ver o sol fugir no horizonte. Enfim, aquele lugar pareceu-me perfeito para mim.

Num rasgo de lucidez, lembrei-me que já era tarde, tinha de voltar para casa. Tentei então levantar-me para sair dali mas fui incapaz, estava pregada àquele chão, não queria mais sair dali.  

quarta-feira, 9 de julho de 2014

hoje

É mais um dia, talvez um dia como todos os outros. Mas tudo parece diferente, as forças parecem ter-me abandonado, a vontade, do que quer que seja, parece ter-me escapado entre os dedos, sem qualquer intenção de regressar.
Todos os dias são uma luta para permanecer fiel a mim mesma, mas há dias, como hoje, nos quais perco noção do que isso significa. Devo manter-me fiel a quê? A quem? Quem sou eu, quem fui eu, quem quero eu ser?
É tão fácil perder-me no meio de histórias mal resolvidas, sentimentos frustrados, pensamentos vazios. A minha mente vagueia entre a carência de afecto que me preenche o espírito, o calor do meu corpo que se sente incompleto e a minha necessidade de valorizar o meu eu, esse tal que eu já desconheço.
É nestes dias que me fecho em mim, à procura de respostas, à espera de um amanhã mais claro, suplicando à vida que não deixe que eu me perca no meu íntimo desolado.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

assim seria perfeito

Tu devias estar com…
Devias estar com aquela pessoa que te faz rir e chorar, praticamente pelos mesmos motivos. Devias estar com aquela pessoa que, sem tu saberes como nem porquê, te faz querer passar o resto da tua vida a seu lado, com toda a sua luz e faces escuras, ocultas.
Independentemente da forma como os teus dias passam, a sorrir ou a querer morrer, tu queres a sua presença, por muito que, por vezes, só o pensamento do seu rosto, te dê vontade de estilhaçar toda a loiça que tens pacificamente repousada nos armários, só porque te enraivece a forma como ela te baralha os sentimentos e te entorpece o raciocínio.
Ser capaz de amar, especialmente desta forma, é algo incrivelmente poderoso, leva-te à montanha russa dos sentimentos, faz-te viajar da felicidade à mais intensa revolta em segundos de pura loucura, faz-te chegar ao topo do mundo, só para depois descer vertiginosamente para o mais profundo dos vales.
No final das contas, vale mesmo a pena? Valerá a pena ir aos infernos porque sentiste o sabor dos teus cinco minutos no céu? Bem, poderemos nós ser livres, digo, realmente livres, vivendo uma vida na tentativa de controlar aquilo que faz de nós selvagens, imprevisíveis, deliciosos e entorpecidos seres humanos?
Se a chuva cai, se os rios correm para o mar, se o vento sopra, apenas porque assim é. É assim que funciona, as coisas encaixam, elas acontecem porque a natureza é a mais perfeita das máquinas, ela funciona como tem de funcionar. Se tu, ai embrulhado nesses lençóis, sentes a mais perfeita harmonia só por sentir um cheiro, um toque, um bater de coração, quem és tu para dizer à natureza como funcionar? Os rios correm para o mar, e tu corres para a pessoa que te faz sentir tudo isto, é assim que tem de ser, e é assim que vai ser, não importa o quanto lutes ou esperneies. Porque o Amor é a força mais poderosa da natureza.

começando por aqui...

Em branco, a folha e a mente. Vazio, tão vazio este quarto e esta noite sem estrelas, sem luar, cheia de não-sentimentos.
Que vida esta, que existência supérflua. Tal falta de discernimento das pargas que haviam de tecer tão contorcido destino.
Surpreendo-me a contemplar este vazio, a tentar ler o livro em branco, Vazio. Oh poeta morto, nem em ti vejo conforto, talvez visse algum no teu ópio, como tu. Podia então despersonalizar-me, ser outra, viver uma outra vida, quem sabe essa outra faria mais sentido.